Bases teóricas

1. Lexicologia e lexicografia

O que é léxico?

O léxico é entendido como o conjunto de todas as palavras de uma língua, também chamadas de lexias. As lexias são unidades de características complexas cuja organização enunciativa é interdependente, ou seja, a sua textualização no tempo e no espaço obedece a certas combinações. Embora possa parecer um conjunto finito, o léxico de cada uma das línguas é tão rico e dinâmico que mesmo o melhor dos linguistas não seria capaz de enumerá-lo. Isto ocorre porque dele faz parte a totalidade das palavras, desde as preposições, conjunções ou interjeições, até os neologismos, regionalismos ou terminologias, passando pelas gírias, expressões idiomáticas, provérbios ou palavrões.

 

O que é lexicologia?

A Lexicologia é a ciência que estuda o léxico e a sua organização de pontos de vista diversos. Cada palavra remete a particularidades relacionadas ao período histórico em que ocorre, à região geográfica a que pertence, à sua realização fonética, aos morfemas que a compõem, à sua distribuição sintagmática, ao seu uso social e cultural, político e institucional. Desse modo, cabe à Lexicologia dizer cientificamente em seus variados níveis o que diz o léxico, ou seja, a sua significação. Ao lexicólogo, especialista da área, incumbe levar a termo essa tarefa tão complexa sobre uma ou mais línguas. (Autoria: Adriana Zavaglia e Herbert Welker, 2008; revisão: Magali Duran e Patrícia Chittoni Reuillard, 2008; revisão: Claudia Zavaglia, 2013).

 

O que é lexicografia?

A Lexicografia é a ciência, intimamente ligada à Lexicologia, que tem por finalidade elaborar obras de referência, principalmente dicionários, impressos ou on-line, além de bases de dados lexicais. Dessa Lexicografia prática distingue-se a Lexicografia teórica, ou Metalexicografia, que estuda todas as questões ligadas aos dicionários (história, problemas de elaboração, análise, uso).

Os dicionários podem variar muito, tanto em relação ao número de entradas quanto em relação à temática ou à maneira de descrever o léxico. Eles podem ser verdadeiros tesouros lexicais (de 100.000 a 500.000 ou mais entradas), indispensáveis apoios didáticos (os dicionários pedagógicos), importantes auxílios na produção de textos (dicionários de uso e, novamente, os dicionários pedagógicos) ou excelentes descritores histórico-culturais (os dicionários enciclopédicos e ilustrados).

Eles podem registrar uma parcela maior ou menor do léxico total (isto é, de todos os tipos de itens lexicais) ou apenas um tipo específico (verbos, estrangeirismos, sinônimos, etc.) ou podem restringir-se a fraseologismos (expressões idiomáticas, provérbios, etc.). Eles podem ser alfabéticos (semasiológicos) ou temáticos (onomasiológicos). Podem ser descritivos (registrando como os itens lexicais são usados na realidade) ou prescritivos (determinando de que maneira palavras e expressões deveriam ser empregadas, ou criticando seu uso). Podem ser monolíngues (uma só língua), bilíngues (duas línguas), trilíngues (três línguas) ou multilíngues.

Qualquer que seja a obra final elaborada pelo lexicógrafo, especialista da área, um dicionário sempre trará ao seu consulente informações que desconhece. Assim, a  elaboração e a publicação de dicionários não deixam de ser uma prática social de utilidade pública, servindo à escola, à pesquisa e à disseminação do conhecimento em geral. Nesse sentido, vale notar que a tendência atual da Lexicografia é o trabalho baseado ou dirigido por corpora, ou seja, bases textuais informatizadas compiladas especialmente para esse fim, pelas quais se pode contemplar e descrever mais eficazmente o uso do léxico. (Autoria: Adriana Zavaglia e Herbert Welker, 2008; revisão: Magali Duran e Patrícia Chittoni Reuillard, 2008; revisão: Claudia Zavaglia, 2013.)

 

2. Terminologia e terminografia

O que é terminologia?

O termo terminologia pode ter duas acepções distintas. A primeira refere-se ao conjunto vocabular próprio de uma ciência, técnica, arte ou atividade profissional (TERMISUL1; O Pavel2), como por exemplo a terminologia da Informática, da Biotecnologia, do Direito, da Música, etc. A segunda acepção designa não só o conjunto de práticas e métodos utilizados na compilação, descrição, gestão e apresentação dos termos de uma determinada linguagem de especialidade (=terminologia enquanto atividade) (SAGER,1993), como também o conjunto de postulados teóricos necessários para dar suporte à análise de fenômenos linguísticos concernentes à comunicação especializada, incluídos aí os termos, evidentemente (=terminologia enquanto teoria).

Para efeito de clareza, emprega-se normalmente terminologia, com inicial minúscula, para designar vocabulário, repertório vocabular ou comunicação especializada; para terminologia enquanto atividade e teoria, emprega-se Terminologia, mas com a inicial maiúscula.

O principal objetivo da Terminologia é “dar conta do funcionamento das unidades lexicais especializadas em situações comunicativas profissionais, acadêmicas ou científicas” (LORENTE, 2004), de modo que essa comunicação “ se realize de forma compreensível e sem ambigüidades em ambientes mono e/ou multilíngües.” (TERMISUL)

 

Importância da Terminologia

A ciência e a tecnologia não se restringem mais a grandes laboratórios ou centros avançados, elas estão presentes no cotidiano dos indivíduos, a ponto de as pessoas não se darem conta disso. O conceito digital3, por exemplo, com os seus desdobramentos etimológicos, está no computador, no telefone celular, no teclado do forno de microondas, na máquina fotográfica, etc. Neste sentido, a ciência e a tecnologia formam e determinam uma parte essencial da vida cotidiana.

Com essa interferência direta, a língua deve estar apta para nomear novos referentes, a ponto de ser eficaz em todos os âmbitos de interação comunicativa. Sendo assim, as linguagens especializadas, com o suporte prático e teórico da Terminologia, são peças-chave para legitimar a função real de uma língua como veículo de comunicação também em situações especializadas.

É fato que, num uso informal de linguagem, não há a preocupação com a precisão terminológica; entretanto, em se tratando de uso especializado, essa precisão é fundamental. Os avanços científicos e tecnológicos precisam ter nomes, e nomes apropriados. Os termos constituintes de um domínio especializado refletem a estruturação conceitual desse domínio, e não só isso: eles são a base da comunicação especializada, porque com a terminologia, além da ordenação do pensamento, os especialistas transferem o conhecimento sobre uma disciplina, em uma ou mais línguas, facilitando, assim, os intercâmbios econômico e tecnológico. Dessa forma, o uso de terminologias sistematizadas ou harmonizadas – através da Terminologia – contribui para tornar mais eficaz a comunicação entre especialistas, comunicação essa que se propõe, acima de tudo, a ser concisa, precisa e adequada (CABRÉ, 1996).

Ressalte-se, porém, que a necessidade de sistematizar ou harmonizar terminologias deve surgir do próprio grupo. A vontade de entender o outro e de fazer-se entender condicionada à necessidade de comunicar-se de maneira unívoca e rigorosa, sobretudo em situações em que a precisão é mais importante que a expressividade (CABRÉ, 1996), faz com que determinado domínio de especialidade, representado por grupos de especialistas, busque soluções para tornar mais eficaz a comunicação. Num cenário ideal, essas soluções deveriam contar com a atividade do terminólogo, mas nem sempre isso ocorre, pelo menos não no Brasil.

É importante lembrar que qualquer iniciativa de sistematizar ou harmonizar um vocabulário não deve ser artificial ou imposta; ao contrário, deve partir dos próprios especialistas.

Note-se que essas iniciativas têm sido constantes, porque não só empresas, mas também países buscam integrar-se em função das exigências do mundo globalizado. Um dos fatores essenciais presentes nas propostas de integração entre países é a cooperação técnica e científica. Ora, como tornar exequível essa cooperação sem passar pela Terminologia? Para os tradutores proporem equivalências, é preciso que haja, antes, terminologias adequadamente construídas.

A existência de terminologias sistematizadas atesta que a língua está apta para nomear conceitos técnicos e científicos. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que se promove a disseminação de conhecimentos e de tecnologias através da tradução, fomenta-se a língua nacional. Assim, à necessidade de natureza linguística soma-se outra de natureza política.

________________________


Referências bibliográficas

CABRÉ, M. Teresa. Importancia de la terminología en la fijación de la lengua. Revista internacional de língua portuguesa. Núm. 15, jul. 96. Lisboa: Editorial Notícias, p. 9-24, 1996.

LORENTE, M. A lexicologia como ponto de encontro entre a gramática e a semântica. In: ISQUERDO, A. N. e KRIEGER, M. G. As ciências do léxico, vol. II. Campo Grande: Editora UFMS, 2004.

O Pavel: Curso Interativo de Terminologia. Disponível em: http://www.termium.gc.ca/didacticiel_tutorial/portugues/lecon3/page3_5_3_p.html. Acesso em: jun. 2008.

REY, A. (dir.) Dictionnaire historique de la langue française. 2 vols. Paris: Le Robert, 1992.

SAGER, J. C. Curso práctico sobre el procesamiento de la terminología (trad. castelhana de Laura C. Moya). Madrid: Fundación Germán Sánchez Ruipérez/Pirámide, 1993. (Autoria: Gladis Maria de Barcellos Almeida e Margarita Correia, 2008.)

________________________ 

1 Grupo de Pesquisa do CNPq sediado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Criado em 1991 no Instituto de Letras. Acesse o site: http://www6.ufrgs.br/termisul/terminologia_terminografia.php
2 http://www.termiumplus.gc.ca/didacticiel_tutorial/portugues/lecon1/page1_2_2_p.html
3 Ainda que grandes dicionários da língua portuguesa (exs.: Aurélio, Houaiss, Michaelis, Porto Editora) apresentem uma única entrada para o adjetivo digital, REY (1992, vol. 1, s.v. digital) defende a existência de dois homônimos na língua francesa: digital proveniente do latim digitalis («da grossura de um dedo», por sua vez derivado de digitus («dedo»); e digital («que opera sobre dados discretos, numéricos e não contínuos»), tomado de empréstimo ao inglês norte-americano, por volta de 1960, e que constitui um termo de numeração.

 

O que é terminografia?

A terminografia é a ciência, intimamente ligada à Terminologia, que tem por finalidade elaborar obras de referência, principalmente dicionários e/ou glossários, impressos ou on-line, além de bases de dados terminológicos. Dessa terminografia prática distingue-se a terminologia teórica, que estuda todas as questões ligadas aos dicionários terminológicos (história, problemas de elaboração, análise, uso).